Domingo, 29 de Julho de 2007
Cantarinhos - Mortandade de carpas

Na minha paixão pela pesca, na sexta-feira, decidi mudar de "poiso". É que, dia após dia, cada vez tenho tido menos êxito no Tejo. Há um mês atrás, pescava 40 a 50 peixes diversos, por tarde. Entretanto a quantidade e tamanho do pescado foi reduzindo a cada dia e, ultimamente, raras as vezes ultrapassei a dezena de minorcas.

 

Não venham os mais atentos ou perspicazes observar que: "Pudera, se os pegou antes, como pode continuar a pescá-los?", porque, por norma, mantenho o pescado vivo, por forma a devolvê-lo ao seu habitat com as todas as condições de sobrevivência. Apenas uma vez ou outra trago um exemplar maior ou de melhor qualidade, para consumo.

 

Assim, eu, o Ventura e o inseparável Xico, lá seguimos, cerca das nove horas, a caminho da simpática barragem dos Cantarinhos. A última povoação, Marianos, concelho de Almeirim, dista cerca de 7Km de mata. Aliás o sítio fica a esse exacto raio da civilização. Algumas vezes pode-se estar ali um dia inteiro, sem que se veja uma única alma, logo perfeito para quem, como eu, amiudadas vezes, precisa desse tipo de cumplicidade com a natureza.

 

Falando em natureza, as coisas, de facto, não vão bem. Contrariamente ao que afirmo no parágrafo acima, esta sexta-feira, existia, naquele lugar um movimento inusitado. Lenhadores procediam ao corte de pinheiros bravos, "pinus pinaster", coisa que tenho vindo a observar nos sítios mais recônditos.

Ao que consta, a espécie está acometida de doença epidémica e, ao que dizem, a solução é o abate.

Sinceramente, embora me preocupe, ainda não me debrucei seriamente sobre o assunto, embora me ocorram catástrofes do género de irem abater também, por exemplo, o pinhal de Leiria.

O certo é que, em muitos locais a paisagem já não é a mesma. Está mais pobre, estamos mais pobres! O simpático pinheiro dito bravo está a desaparecer. Como se não bastasse o flagelo dos incêndios de verão, vem agora a doença.

Espero e desejo que os nossos "especialistas" florestais não permitam a sua substituição pelo eucalipto, resistente ao fogo, de crescimento rápido, muito interessante para as celuloses, mas que desvirtualiza a paisagem, absorve as espécies autóctones e suga todo o "sangue" da terra.

 

Ah... antes da pesca, vou ter que falar ainda dos incêndios. Tenho, aliás julgo que todos temos, os ouvidos cheios das preocupações e estratégias governamentais. Coitados, tiveram o azar de ter chovido demais, logo maior crescimento de matérias combustíveis, que quando vier o calor é a tragédia, bla, bla, bla... mas que está tudo preparado, protecção cívil, bombeiros, forças da ordem, aviões especiais, vigilância, etc... Tudo para "inglês ver e ouvir".

O certo é que, no terreno não se vê nada disso. Nas minhas incursões compulsivo-piscatórias, não vejo nada disso. Bom para não ser radical, de facto, há meses, numa manhã fresca e cheia de nevoeiro, encontrei, por duas vezes, uma carrinha 4x4, com um pequeno depósito e uma espécie de motor de rega na respectiva caixa de carga. Sendo que, os seus ocupantes, não eram bombeiros nem elementos da agora célebre força especial de combate a incêndios, da GNR (tenho opinião sobre esta força, mas no comments). Mais tarde, por "portas travessas", vim a saber que se tratavam de elementos da autarquia, sem qualquer instrução sobre o material. Aliás um responsável autárquico confidenciou-me que recebeu um ou dois kits daqueles, mas que não houve formação para ninguém. Que nem sequer sabiam se o fogo se ataca por cima ou pela base, estando em estudo a possibilidade de oferecerem o material a quem de direito - aos bombeiros.

 

No caminho da pesca, geralmente costumo observar bem as coisas, ou seja, não olho apenas, tenho por hábito ver mesmo. E o que vejo são os lenhadores a abater, cortar em toros e transportar o pinho para o local de transporte, sendo que a rama, o tal material inerte e apregoadamente perigoso fica a secar entre sobreiros e chaparros.

Sei que é obrigatório proceder à limpeza de tais materiais e acredito que mais tarde ou mais cedo o vão fazer, mas naquela sexta-feira a temperatura estava acima dos 30, hoje anda pelos 40 e para amanhã a previsão é de 43º.

Nada tenho que me meter no trabalho dos outros, mas porque raio protegem de imediato os troncos e não fazem antecipadamente a limpeza das ramagens? Porque razão não vi por ali pessoal dos serviços florestais a acompanhar o abate? Se ali estivessem obrigariam a fazer o serviço como, embora leigo, preconizo?

 

Sei que não estariam por ali, porque, ao chegar ao pesqueiro, quando começava a instalar os apetrechos, eis que, à minha direita, a cerca de 2m da água, se encontrava uma carpa enorme, cerca de 3kg, morta e ainda intacta. Observando melhor, encontrei centenas de peixes mortos. Todos da mesma espécie, na sua maioria com cerca de 2kg, coisa para mim estranha porque raramente ali tinha pescado um exemplar desse tamanho.

Percorrida grande parte do perímetro aquícula, na expectativa de encontrar mortos achigãs, pimpões ou percas, nada. Apenas as carpas sucumbiram!

A água estava, como sempre, límpida, fresca e sem sombras de poluição. A acreditar que o ocorrido se devia a mão humana, não podia ter sido veneno. Se fosse cereal em cru, que depois incha e provoca o enfarte ao peixe, obrigatoriamente encontraria pimpões mortos ou moribundos, já que sendo também um ciprinídeo, comeria do mesmo e ali, seguramente, existirão tantos ou mais pimpões que carpas. Achigãs e percas escapariam porque não ingerem cereal.

Restava-me uma hipótese lógica. Geralmente apenas ali pescava carpas aquém de um quilo. Encontrei mortas muito poucas assim pequenas, logo só poderia ser um repovoamento mal feito, nas condições de oxigenação da água aquando do transporte. Não deixando, ainda assim, de estar presente a um problema ecológico, para não dizer outra coisa.

Na expectativa de ali perto, junto ao abate dos pinheiros, se encontar pessoal dos serviços florestais, em busca de esclarecimento, telefonei para a GNR (os guardas florestais foram absorvidos por este corpo). Ficou a promessa do telefonista de que iria enviar pessoal especializado ao local, o que me deu certa satisfação. Satisfação essa que, pouco depois, caiu por terra, quando o mesmo elemento me telefonou a dizer que o assunto já era do conhecimento daquela força, que teria estado no local, no dia anterior.

Quanto às causas: "batatas!". Que podia ter sido cereal em cru ou uma alteração de temperatura da água, o que não me convenceu, face ao exposto acima. Resta-me esperar que um amigo, em particular, me informe da evolução da investigação, se é que vão chegar a alguma conclusão, ou tentar abordar a comunicação social local, para ver se o assunto não cai em "saco roto".

 

Face ao ocorrido, acabei por abandonar os Cantarinhos pelos próximos anos.

 

Fomos almoçar já mais perto de casa, na Barragem dos Gagos, onde responsável e ecologicamente, grelhei na chapa, com o "camping gaz" dentro do jipe, um bom naco de entrecosto de porco e três costoletas do mesmo animal, acompanhados de uma salada de tomate sem azeite (teimosamente ficou em casa), 1,5 l  de vinho rosé, café e um bom trago de aguardente daquela que sabemos, tudo para esquecer as agruras anteriores.

 

Entretanto ainda pescámos uns peixitos que devolvemos à água.

 

Resta-me dizer que tinha a máquina comigo e, estupidamente, pelo transtorno ou fosse porque fosse, nunca me lembrei de fotografar a mortandade.

 

 

Fica uma foto antiga do sítio, para mais tarde recordar.

 


sinto-me: intrigado
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publicado por olharuco às 16:04
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